Consumo inconsciente

por Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do  Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.  Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’.
‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’ ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super  mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente  infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se  apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir este  tênis,  usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!’ O problema é  que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba  precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental  três requisitos são indispensáveis: amizades,  autoestima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de  missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito,  entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo  hambúrguer do Mc Donald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático.’ Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:…

“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser Feliz!”

Mente plastificada

O plástico é o melhor exemplo de material que impede o contato de um meio com outro. Também, serve muito bem para exemplificar o que ocorre com a mente humana quando exposta aos meios eletrônicos de comunicação.

Ao observar a atuação dos meios e tecnologias de captação e transmissão da informação percebemos que eles atuam de forma análoga ao plástico, ou seja, isolam o ser humano da realidade natural.

Os produtores de mídias eletrônicas sintetizam, simulam, transformam os sons e imagens originais, sobrecarregando os sentidos humanos com percepções ilusórias. Criam uma realidade virtual tão exuberante e hipnotizante que, até mesmo, tornam sem graça os sons e as cores originais da natureza. Com isso, é  comum observar o uso de aparelhos de som e imagem nos passeios, isolando os sentidos de tudo o que é natural.

Com o advento das mídias eletrônicas o ser humano tornou-se menos sinestésico (contatos sensoriais) e mais mental (vivências imaginárias). Os meios de comunicação (tevê, internet etc.) têm induzido experiências plastificadoras de toda espécie. Projetam sons e imagens, criando realidades virtuais, assépticas, mortas, que excluem a vida real.

As percepções humanas em estado de vigília são, para a grande maioria, projeções da mente fantasiosa, ou seja, não são reais. Com ao advento da realidade virtual percebemos um distanciamento ainda maior da realidade. Prova disso é o desenvolvimento das redes sociais que, para grande parte dos usuários, passou a ser o único meio de contato social, através trocas meramente virtuais. A realidade virtual é extremamente perigosa para o homem que torna a sua mente plastificada.

Os meios eletrônicas de comunicação seriam muito úteis se fossem empregados com sabedoria. É preciso reorientar o uso dessas poderosas e mídias, lembrando que são eficientes instrumentos comunicação social e de registro e arquivamento do conhecimento e não meios de seduzir e hipnotizar a humanidade. Rudolf Steiner (fundador da Antroposofia / 1861-1925) alertou para o risco de doenças que afetariam a mente, em virtude do uso desregrado de tais tecnologias. Para o bom observador fica fácil constatar que tais doenças já aparecem na forma de inúmeras síndromes psíquicas, muitas delas, ainda sem explicação científica.

Os sons, as formas e as cores da natureza viva não só curam o corpo como alimentam a alma. É importante saber que ao mergulhamos na plastificadora realidade virtual, perdemos contato com a vida e, com isso, adoecemos.  A humanidade, sem perceber, passou a ser uma extensão das máquinas que podem até imitar, mas nunca recriar as belezas da natureza.

Amir El Aouar

O destemor da morte

“NÃO ESTOU MORRENDO…

ESTOU ME UNINDO À IMENSIDÃO…”

Frase do personagem Ibrahim (interpretado por Omar Sharif), no leito de morte, do filme ‘Uma Amizade sem Fronteiras’.

O poderoso eletromagnetismo do coração

 O coração é o primeiro órgão formado no útero. Recentemente, neurofisiologistas ficaram surpresos ao descobrirem que o coração é mais um órgão de inteligência, do que (meramente) a estação principal de bombeamento do corpo. Mais da metade do Coração é na verdade composto de neurônios da mesma natureza daqueles que compõem o sistema cerebral. Joseph Chilton Pearce – autor de A biologia da Transcendência, chama a isto de ”o maior aparato biológico e a sede da nossa maior inteligência.”

 

O coração também é a fonte do corpo de maior força no campo eletromagnético. Cada célula do coração é única e na qual não apenas pulsa em sintonia com todas as outras células do coração, mas também produz um sinal eletromagnético que se irradia para além da célula. Um EEG que mede as ondas cerebrais mostra que os sinais eletromagnéticos do coração são muito mais fortes do que as ondas cerebrais, de que uma leitura do espectro de frequência do coração podem ser tomadas a partir de três metros de distância do corpo … sem colocar eletrodos sobre ele!

A frequência eletromagnética do coração produz arcos para fora do coração e volta na forma de um campo saliente e arredondado, como anéis de energia. O eixo desse anel do coração se estende desde o assoalho pélvico para o topo do crânio, e todo o campo é holográfico, o que significa que as informações sobre ele podem ser lidas a partir de cada ponto deste campo.

O anel eletromagnético do coração não é a única fonte que emite este tipo de vibração. Cada átomo emite energia nesta mesma frequência. A Terra está também no centro de um anel, assim é o sistema solar e até mesmo nossa galáxia … e todos são holográficas. Os cientistas acreditam que há uma boa possibilidade de que haja apenas um anel universal abrangendo um número infinito e interagindo dentro do mesmo espectro. Como os campos eletromagnéticos são anéis holográficos, é mais do que provável que a soma total do nosso Universo esteja presente dentro do espectro de frequência de um único anel.

Isto significa que cada um de nós está ligado a todo o Universo e como tal, podemos acessar todas as informações dentro dele a qualquer momento. Quando ficamos quietos para acessar o que temos em nossos corações, nós estamos literalmente conectados à fonte ilimitada de Sabedoria do Universo, de uma forma que percebemos como “milagres” entrando em nossas vidas.

Quando desconectamos e nos desligamos da sabedoria inata de amor do coração, baseado nos pensamentos, o intelecto refletido no ego assume o controle e opera independentemente do Coração, e nós voltamos para uma mentalidade de sobrevivência baseada no medo, ganância, poder, controle. Desta forma, passamos a acreditar que estamos separados, a nossa percepção de vida muda para uma limitação e escassez, e temos que lutar para sobreviver. Este órgão incrível, que muitas vezes ignoramos, negligenciamos e construímos muros ao redor, é onde podemos encontrar a nossa força, nossa fé, nossa coragem e nossa compaixão, permitindo que a nossa maior inteligência emocional guie nossas vidas.

Devemos agora mudar as engrenagens para fora do estado baseado no medo mental que temos sido ensinados a acreditar, e nos movermos para viver centrados no coração. Para que esta transformação ocorra, é preciso aprender a meditar, “entrar em seu coração” e acessar a sabedoria interior do Universo. É a única maneira, é o caminho. A medida que cada um de nós começa esta revolução tranquila de viver do coração, vamos começar a ver os reflexos em nossas vidas e em nosso mundo. Esta é a forma como cada um de nós vai criar uma mudança no mundo, criar paz, criar harmonia e equilíbrio, e desta forma, vamos todos criar o paradigma do novo Mundo do céu na terra.

Rebecca Cereja

Joseph Chilton Pearce é o autor de vários outros livros, incluindo Crack In The Cosmic Egg, The Magical Child, e Evolution’s End. (O fim da Evolução). Por mais de trinta anos, ele tem realizado conferências e ministrado aulas internacionalmente sobre o desenvolvimento humano. Mais recentemente ele completou A Biologia do Transcendence, e co-autor de um livro e vídeo série sobre Nutrir com Michael Mendizza.

Redescobrindo o sentido da vida

Escrito por Olavo de Carvalho

Arte de Sami MattarFreud assegurava que, reduzido à privação extrema, o ser humano perderia sua casca de espiritualidade e poria à mostra sua verdadeira natureza, comportando-se como um bicho. Victor Emil Frankl, psiquiatra, judeu e austríaco como Freud, não acreditava nisso, mas não teve de inventar uma resposta ao colega: encontrou-a pronta no campo de concentração de Theresienstadt durante a II Guerra Mundial.

Ali, reduzidos a condições de miséria e pavor que no conforto do seu gabinete vienense o pai da psicanálise nem teria podido imaginar, homens e mulheres habitualmente medíocres elevavam-se à dimensão de santos e heróis, mostrando-se capazes de extremos de generosidade e auto-sacrifício sem a esperança de outra recompensa senão a convicção de fazer o que era certo. A privação despia-os da máscara de egoísmo biológico de que os revestira uma moda cultural leviana, e trazia à tona a verdadeira natureza do ser humano: a capacidade de autotranscendência, o poder inesgotável de ir além do círculo de seus interesses vitais em busca de um sentido, de uma justificação moral da existência.

Uma recente viagem a Filadélfia, onde a Universidade da Pennsylvania comemorava com um ciclo de conferências o centenário de nascimento do criador da Logoterapia, trouxe-me a lembrança animadora de que na história das idéias tudo se dá como na vida dos indivíduos: mesmo a extrema indigência espiritual consolidada por séculos de idéias deprimentes não impede que, de repente, a consciência do sentido da vida ressurja com uma força e um brilho que pareciam perdidos para sempre. A evolução do pensamento moderno, de Maquiavel ao desconstrucionismo, é marcada pela presença crescente do fenômeno que denomino “paralaxe cognitiva”: o hiato entre o eixo da experiência pessoal e o da construção teórica. Cada novo “maître à penser” esmera-se em criar teorias cada vez mais sofisticadas que sua própria vida de todos os dias desmente de maneira flagrante. A “análise existencial” de Frankl, a contrapelo do “existencialismo” de Heidegger e Sartre que é uma apoteose da paralaxe, recupera o dom de raciocinar desde a experiência direta, que ao longo da modernidade foi renegada pelos filósofos e só encontrou refúgio entre os poetas e romancistas.

O que Frankl descobriu em Thesienstadt foi que além do desejo de prazer e da vontade de poder existe no homem uma força motivadora ainda mais intensa, a “vontade de sentido”: a alma humana pode suportar tudo, exceto a falta de um significado para a vida. Ao contrário, dizia Frankl, “se você tem um porquê , então pode suportar todos os comos “. A privação de sentido origina um tipo de neurose que Freud e Adler não haviam identificado, e que é a forma de sofrimento psíquico mais disseminada no mundo de hoje: a neurose noogênica , isto é, de causa espiritual, marcada pelo sentimento de absurdo e vacuidade. A análise existencial é a redescoberta da lógica por trás do absurdo, a reconquista do estatuto espiritual humano que torna a vida digna de ser vivida. A logoterapia é a técnica psicoterápica que faz da análise existencial uma ferramenta prática para a cura das neuroses noogênicas.

Uma pesquisa da Biblioteca do Congresso mostrou que “Man’s Search for Meaning”, a mistura de autobiografia, análise filosófica e tratado psicoterápico em que Frankl expõe as conclusões da sua experiência no campo de concentração, é um dos dez livros que mais influenciaram o povo americano. Se, a despeito disso, a obra de Frankl ainda não alcançou o lugar merecido nas atenções do establishment acadêmico, é simplesmente porque este é o templo da paralaxe cognitiva.

* * *

Livros de Victor Frankl no Brasil:

Em Busca de Sentido (Vozes-Sinodal)
Psicoterapia Para Todos (Vozes)
A Questão do Sentido em Psicoterapia (Papirus)
Um Sentido para a Vida (Santuário)
Sede de Sentido (Quadrante)
Psicoterapia e Sentido da Vida (Quadrante)
A Presença Ignorada de Deus (Vozes-Sinodal)

Publicado na Primeira Leitura, novembro de 2005

Sorte ou azar?

Um conto oriental muito antigo fala de um camponês que habitava numa aldeia muito pobre do interior.

Era considerado bem de vida porque possuía um cavalo que usava para arar a terra e como meio de transporte. Um dia seu cavalo fugiu. Todos os vizinhos exclamaram que isso era terrível; o camponês disse simplesmente: “Talvez”.

Alguns dias depois, o cavalo voltou e com ele trouxe mais dois cavalos selvagens. Todos os vizinhos alegraram-se com sua boa sorte, mas o camponês disse simplesmente: “Talvez”.

No dia seguinte, o filho do camponês tentou montar um dos cavalos selvagens; este lançou por terra e o rapaz quebrou a perna. Os vizinhos todos condoeram com seu azar, mas novamente o camponês disse: “Talvez”.

Na semana seguinte, os oficiais da convocação militar vieram até a aldeia para recrutar jovens para o exército. Rejeitaram o filho do camponês porque estava com a perna quebrada.

Quando os vizinhos comentaram como tinha sorte, o camponês respondeu: ”Talvez”…

Fonte: www.appanamind.com.br

Os domingos precisam de feriados

Toda sexta-feira à noite começa o Shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino no sétimo dia da Criação.

Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo.

A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.

Hoje, o tempo de “pausa” é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações para não nos ocuparmos. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições.

Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo…

Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim.

Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente.

As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado…

Nossos namorados querem “ficar”, trocando o “ser” pelo “estar”.

Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI – um dia seremos nossos?

Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante.

Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos…

Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida.

A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é: o que vamos fazer hoje? Já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.

Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande “radical livre” que envelhece nossa alegria – o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.

Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar.

Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada seja dá-lo como concluído.

Nilton Bonder – Rabino

Buscando a sua outra metade?

“Os relacionamentos conjugais deveriam pautar-se no princípio da união de duas pessoas inteiras e não duas metades tentando se completar.” Faz alguns anos que divulgo essa idéia, corroborada pelo  respeitado médico psiquiatra Flávio Gikovate.

Numa entrevista publicada no site www.publicfirstclass.com.br, ele destaca que o amor romântico figurado nos filmes de Hollywood, está com os dias contados. Conforme professamos, os relacionamentos precisam respeitar a individualidade do outro para darem certo. “Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva, afirma Gikovate.”

Abaixo, confira os principais trechos da entrevista:

O que o senhor pode nos dizer a respeito da instituição “casamento” nos dias atuais?

Muitos casamentos entre opostos, com a idéia de fusão, ainda vão acontecer antes que as pessoas se dêem conta de que não dá mais para insistir nesse tipo de relacionamento. O casamento deveria unir duas pessoas inteiras, não duas metades tentando se completar. Enquanto persistir esse pensamento equivocado, as separações só tendem a aumentar. Com base nos atendimentos que faço e nas pessoas que conheço, não passam de 5% os casais que vivem felizes. A imensa maioria é a dos mal casados. São indivíduos que se envolveram em uma trama nada evolutiva e pouco saudável. Vivem relacionamentos possessivos em que não há confiança recíproca nem sinceridade. Por algum tempo depois do casamento, consideram-se felizes e bem casados porque ganham filhos e se estabelecem profissionalmente. Porém, lá entre sete e dez anos de casamento, eles terão de se deparar com a realidade e tomar uma decisão drástica, que normalmente é a separação.

Casamento e amor andam lado a lado?

Primeiro é preciso entender que o amor romântico, apesar de aparecer o tempo todo nos filmes, romances e novelas, está com os dias contados. Esse amor, que nasceu no século XIX com a revolução industrial, tem um caráter muito possessivo. Segundo esse ideal, duas pessoas que se amam devem estar juntas em todos os seus momentos livres, o que é uma afronta à individualidade. E a individualidade é algo que ninguém mais aceita negociar nos dias de hoje. Por isso, os casamentos terão de ser repensados. A união se dará entre pessoas maduras emocionalmente.

O que faz o casamento dar certo? Afinidades ou pontos de vista conflitantes?

Com certeza são as afinidades. As relações afetivas estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar. Quando há qualidade, as chances de o relacionamento durar são bem maiores.

O que seria melhor: casar sem estar apaixonado, mas sabendo que a pessoa com quem se está casando divide muitos dos seus gostos, ou casar pura e simplesmente por estar apaixonado, sem que haja afinidades?

Opto sempre pela relação entre duas pessoas inteiras. Não podemos responsabilizar o outro pelo nosso bem-estar. Essa é uma luta individual. Os maridos não serão mais protetores ou provedores nos relacionamentos baseados no que chamo de +amor [sentimento que respeita a individualidade, segundo Gikovate]. Terão de ser encarados como companheiros, parceiros de viagem. Mas isso só é possível para quem conseguem trabalhar a individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

Se um casamento acabou, podemos dizer que não deu certo. Mas há muitos casamentos que não acabam e nem por isso tenham dado certo, correto?

Tenho insistido no conceito de que caminhamos para uma mudança profunda nas relações afetivas. No futuro, ou existirão relacionamentos afetivos de ótima qualidade, onde os casais aprenderão a desenvolver uma vida sexual igualmente rica; ou então existirão pessoas solteiras, vivendo o sexo como fenômeno pessoal e/ou mantendo relacionamentos afetivos mais superficiais e passageiros. Não vejo futuro para as relações de qualidade média. É assim: a vida a dois terá de ser melhor do que viver só. Como viver só está cada vez melhor, todos os relacionamentos que forem de qualidade inferior a essa vida tenderão a desaparecer.

O fato de, antigamente, os homens darem as cartas e as mulheres obedecerem e, hoje, os dois pensarem e terem independência, é um ponto que contribui para a separação?

As mulheres de hoje buscam relações afetivas de qualidade. A evolução, certamente, explica o fim dos casamentos de má qualidade. Mas insisto em dizer que é a ideia errada do que é o casamento atualmente é o que mais tem contribuído para as separações. Quem se acostuma a viver vários relacionamentos que acabam não dando certo, está insistindo nessa noção de amor antiquada, que não leva em conta que o mundo mudou. A mulher tornou-se independente econômica e sexualmente e pôs fim a estabilidade conjugal. Há também o avanço tecnológico, que propicia ainda mais a individualidade. Quem ignora esses avanços, continua procurando um parceiro que seja o seu oposto para se sentir completa. Voltamos à relação problemática de unir duas metades, quando deveriam ser dois inteiros.

Por que você acha que os indivíduos fascinam-se pelas histórias amorosas (em livros, por exemplo) ao mesmo tempo em que fogem delas na vida real?

As pessoas gostam mais de sonhar com o amor do que viver uma relação correspondida para valer. Uns amam sem ser tão amados. Outros são amados, mas não amam. Poucos amam e são amados da mesma forma. Parece que a maioria das pessoas tem dentro de si um grande medo do amor, medo que predomina sobre o desejo. Assim, prevalece o medo de perder a individualidade e, principalmente, o medo da felicidade.

Por que a felicidade amorosa causa tanto medo?

O medo da felicidade é assim: quando tudo está bem, as pessoas acham que vai cair um raio na cabeça. Parece que a felicidade atrai uma tragédia. O medo da felicidade está na origem da superstição. As pessoas batem na madeira, fazem figas, vários rituais de proteção. É como se a felicidade repetisse o problema do parto outra vez. O primeiro registro cerebral é que estava tudo bom no útero. O segundo é a dramática ruptura. Então o indivíduo fica achando, quando está tudo bem, que vai haver outro Big-Ben. Enfrentar o medo da felicidade é um passo fundamental para viver em paz. Costumo dizer que há quatro requisitos básicos para vencer o medo: maturidade emocional, definida como boa tolerância a frustrações e sofrimentos de todo tipo; maturidade moral, ou seja, a superação do egoísmo original sem se deixar levar depois pela trama dos sentimentos de culpa; uma razoável saúde física; e uma atividade profissional capaz de nos entreter e de nos prover das condições materiais necessárias para uma vida digna e confortável. É importante saber que a felicidade pode ser perigosa quando implica utopias e expectativas inalcançáveis. Por isso, não se deve deixar de considerar os possíveis momentos de infelicidade, que são compulsórios e fazem parte da condição humana.

Leia também: Metade da alma x alma inteira

Se não quiser adoecer…

Se não quiser adoecer – “fale de seus sentimentos”. Emoções e sentimentos que são escondidos, reprimidos, acabam em doenças como gastrite, úlcera, dores lombares, dor na coluna. Com o tempo, a repressão dos sentimentos, a mágoa, a tristeza, a decepção degenera até em câncer. Então, vamos confidenciar, desabafar, partilhar nossa intimidade, nossos desejos, nossos pecados. O diálogo, a fala, a palavra é um poderoso remédio e poderosa terapia.

Se não quiser adoecer – “tome decisão”. A pessoa indecisa permanece na dúvida, na ansiedade, na angústia. A indecisão acumula problemas, preocupações, agressões. A história humana é feita de decisões. Para decidir, é preciso saber renunciar, saber perder vantagens e valores para ganhar outros. As pessoas indecisas são vítimas de doenças nervosas, gástricas e problemas de pele.

Se não quiser adoecer – “busque soluções”. Pessoas negativas não enxergam soluções e aumentam os problemas. Preferem a lamentação, a murmuração, o pessimismo. Melhor acender o fósforo que lamentar a escuridão. Somos o que pensamos. O pensamento negativo gera energia negativa que se transforma em doença. Pequena é a abelha, mas produz o que de mais doce existe.

Se não quiser adoecer – “não viva sempre triste”. O bom humor, a risada, o lazer, a alegria, recuperam a saúde e trazem a vida longa. A pessoa alegre tem o dom de alegrar o ambiente em que vive. Se não quiser adoecer – “não viva de aparências”. Quem esconde a realidade, finge, faz pose, quer sempre dar a impressão de estar bem, quer mostrar-se perfeito, bonzinho etc. Está acumulando toneladas de peso… Uma estátua de bronze, mas com pés de barro.

Se não quiser adoecer – “aceite-se”. A rejeição de si próprio, a ausência de auto-estima faz com que sejamos algozes de nós mesmos. Ser eu mesmo é o núcleo de uma vida saudável.

OSHO (do livro ‘Saúde Emocional’)

Texto enviado por Marcelo Souza de Carvalho – Atibaia-SP

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